Alugar um apartamento em São Paulo é mais negócio que comprar.

A “casa própria” está deixando de ser um sonho. E alugar um apartamento está longe de ser um fardo. Pelo menos para a turma abaixo.

Evelin Fomin (jornalista) e o marido Lienio Medeiros (diretor de arte) recebem amigos no apartamento alugado na Bela Vista. Foto: Lienio Medeiros.

Nem todos cobiçam trilhar o mesmo caminho: casar, ter filhos, comprar uma casa. Para muitos, o aluguel de imóvel é um estilo de vida que garante mais liberdade para gastar em viagens e cursos. Além disso, eles preferem aplicar as economias em investimentos com maior liquidez.

“Temos observado aqui no QuintoAndar, sobretudo no mercado de São Paulo, que muitas pessoas têm preferido alugar um apartamento a comprá-lo. Eles buscam flexibilidade para mudar de casa caso troquem de emprego ou decidam ir morar fora do país, por exemplo”, aponta Gabriel Braga, CEO da startup.

Para Braga, o comportamento não se restringe aos mais jovens. “A escolha tem mais a ver com o estilo de vida das grandes metrópoles e menos com a idade da pessoa, pois temos casos de clientes mais velhos que também elegem a locação. As pessoas querem morar bem, com conforto, perto do trabalho, ter liberdade e a locação oferece isso. Acreditamos que seja uma visão de mundo que tende a crescer cada vez mais”, esclarece.

“O jeito que você escolhe gastar seu dinheiro diz muito sobre quem você é, como você vive”

Evelin Fomin, 40 anos, sócia-proprietária da agência Muchas — Conteúdo que conecta. Foto: Lienio Medeiros.

A jornalista Evelin Fomin, 40 anos, sócia-proprietária da agência Muchas, adota esse estilo de vida desde 2003, ano em que começou a pesquisar apartamentos à venda no bairro de Pinheiros. Apesar de considerar os preços abusivos para a época, Evelin tinha economias para pagar à vista ou pegar um apartamento maior que, pra ser comprado, exigia financiamento. E ainda assim decidiu não fechar negócio.

“Comprar um imóvel me dava uma sensação de aprisionamento. E sempre achei o crédito habitacional no Brasil um total absurdo. O jeito que você escolhe gastar diz muito quem você é, como você vive. Então, comprar qualquer coisa que eu não acredite valer o que está sendo cobrado, é algo que vai contra meu estilo de vida. Carros e imóveis em capitais do Brasil sempre estiveram nessa lista básica”, explica.

Guardar recursos para viagens também pesou: “Me incomodava muito ficar sem nenhuma reserva pra viajar. Ter dinheiro na poupança, a tal da liquidez, era muito importante porque me dava a sensação de liberdade”.

Anos mais tarde, ela teve momentos de arrependimento. E justificados: a cidade assistiu à super valorização dos imóveis, sobretudo de 2008 diante. Os que adquiriram um imóvel à época se beneficiaram do crescimento da economia. Com mais crédito na praça e juros menores, os preços dos imóveis subiram para a felicidade de seus proprietários.

“Teve gente conseguindo vender seus apartamentos pelo dobro e até triplo do preço original. Mas eu ainda achava uma insensatez os rumos que o mercado imobiliário estava tomando. Enfim, o meu estilo de vida acabou falando mais alto”.

Evelin mora há três anos com o marido num apartamento de 150 metros quadrados na Bela Vista, a 300 metros da Avenida Paulista. Já viajou para Rússia, Islândia e 14 outros países. “O aluguel vale muito a pena pelo espaço e pela localização. E a sensação continua a mesma: liberdade e liquidez”.

“Quem tem a urgência de comprar acaba migrando para regiões periféricas. Investe num imóvel e já é obrigado a pensar no próximo”

Raphaella Aretakis, 32 anos, travel writer. Foto: acervo pessoal.

A viajante Raphaella Aretakis, 32 anos, dona do site Rapha no Mundo, vê a compra de imóveis com bastante ceticismo, principalmente devido aos valores praticados pelo mercado nos grandes centros urbanos.

“Durante os cinco anos em que estive em São Paulo, morei numa região próxima ao metrô. Seria o imóvel ideal para comprar caso este emprego fosse vitalício e tivesse disposição para pagar o equivalente a 17 anos de aluguel por ele. Mas as pessoas mudam de emprego e deveriam poder mudar de endereço. Além disso, não é saudável passar três horas no trânsito porque está ancorado a um imóvel financiado”, relata.

Raphaella hoje mora em um espaço alugado em Curitiba e procura viver de um modo que a permita viajar sempre. Para ela, ser locatária é uma forma de manter um equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

“Sem a urgência de financiar meio milhão de reais num apartamento, você não vive pressionado para ser bem-sucedido financeiramente. Daí surgem os hobbies e é neles que você investe o dinheiro. Quem tem a urgência de comprar acaba migrando para regiões periféricas. Investe num imóvel e já é obrigado a pensar no próximo”.

Mai Dornelles, 27 anos, jornalista. Foto: acervo pessoal.

“Prefiro guardar dinheiro para fazer meu MBA e, depois, voltar a morar fora do país”

Mai Dornelles, 27 anos, é locatária desde que deixou a cidade de Nova York e voltou para Brasília, em 2012. Ela trabalha atualmente como jornalista em São Paulo e divide um apartamento com um amigo no Jardim Paulista. Seus pais têm dois imóveis próprios no país.

“Essa herança me deixa mais tranquila. Tenho muita liberdade de ir e vir e não quero abrir mão disso pelo menos por um tempo. Prefiro guardar dinheiro para fazer meu MBA e, depois, voltar a morar fora de novo”.

Formada em Direito, Luciana Teixeira Morais, 29 anos, também pretende economizar para viajar e fazer cursos de inglês e gastronomia vegana fora do país. Ela divide o apartamento alugado com o namorado faz um ano.

O casal escolheu um espaço perto do trabalho, no bairro da Liberdade, para ter mais qualidade de vida. A locação também representa para Luciana mais autonomia para poder sair da cidade a qualquer hora.

“Comprar um imóvel é como ter um filho. Se criamos esse compromisso, fica mais difícil morar fora depois — pois é sempre mais complicado administrar um apartamento a distância”.

Isaque Criscuolo, 24 anos, analista de mídias sociais. Foto: acervo pessoal.

“Não compraria um imóvel nem se tivesse o dinheiro e fosse simples financiar”

No ano passado, Isaque Criscuolo, 24 anos, analista de mídias sociais, teve que se decidir: entrar num financiamento imobiliário com o namorado ou pegar suas reservas no banco e investir em seu próprio desenvolvimento profissional.

“Eu queria fazer um curso de pós-graduação enquanto meu namorado queria comprar um apartamento para morarmos juntos. Precisei escolher entre o curso ou o financiamento do apartamento conjunto. Optei pelo curso”, conta.

Isaque explica que o financiamento o impediria de fazer especializações que poderiam abrir portas para novas oportunidades profissionais e, consequentemente, um salário maior.

O namorado o compreendeu e hoje os dois moram juntos no apartamento comprado, em 46 metros quadrados no Largo do Arouche. Isaque paga algumas contas da casa que no mesmo valor do antigo aluguel.

“Honestamente falando, acho que não compraria nem se tivesse o dinheiro e fosse menos complicado financiar. Me dá um pouco de nervoso ter tanto dinheiro investido em algo ‘imóvel’, quando este mesmo dinheiro poderia ser investido em experiências mais interessantes da vida”, confessa.

Na ponta do lápis

Além do estilo de vida, aplicações mais rentáveis e com melhor liquidez têm atraído mais os brasileiros em relação à aquisição de uma casa própria.

A alta do desemprego e dos juros reforçam diretamente a decisão de alugar um imóvel, assim como as novas regras de financiamento pela Caixa Econômica Federal.

Hoje, o casal que financiar R$ 300 mil para aquisição de um apartamento usado de R$ 600 mil em São Paulo terá que pagar ao banco R$ 3,2 mil por mês durante os primeiros anos. Será uma dívida de 420 meses, ou seja, 35 anos, com juros efetivos de 9,8% ao ano.

Se esse mesmo casal aplicar seu ativo de R$ 300 mil num investimento conservador ou moderado, como o Tesouro Direto Selic, por exemplo, então terá um rendimento em torno de R$ 2,5 mil ao mês — valor que poderia ser usado para pagar o aluguel da família exatamente em um apartamento de R$ 600 mil, por exemplo. E ainda haveria uma diferença (em relação à opção de compra do imóvel) para outras despesas, como condomínio, IPTU, água e luz.

“O crédito está difícil para o consumidor. Ele está hesitante sobre o futuro da economia do país e de seu próprio emprego. Desembolsar um dinheiro grande agora parece meio arriscado. Muitos optam por outros tipos de investimentos e aplicações”, esclarece Gabriel Braga.

Não por acaso, pela primeira vez em 15 anos existem mais brasileiros interessados em alugar um imóvel do que em comprá-lo, segundo estudo do portal Zap Imóveis. O levantamento apontou que 62% de todas as buscas online são realizadas por usuários interessados em alugar imóveis. Até dezembro de 2014, esse número era de apenas 38%, contra 62% de pesquisas referentes à compra de imóveis.


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