❤ HOME IS WHERE WE ARE TOGETHER ✈

Há três anos eles viajam pelo mundo, pulando de um endereço para outro. Já passaram por 32 países. Sem escritório fixo, moram e trabalham em casas e apartamentos alugados. Glau Gasparetto, 39 anos, gestora de projetos digitais e Adriano Dias, o marido de 44 anos, consultor de tecnologia, contaram ao QuintoAndar.com como é viver uma "vida nômade". Confira na entrevista a seguir. #RentingLifestyle

O casal de nômades, Glau e Adriano, em Fortica Španjola, na Croácia. De nada adianta ter dinheiro e não poder desfrutar do que ele pode proporcionar por falta de tempo”. (Foto: Vida Wireless)

Onde é a “casa oficial” de vocês?

“Home is where we are together”. Não importa onde seja: na Ásia (nossa paixão), na Europa, no Brasil. Nossa casa é onde nós estamos. Nossos gostos coincidem bastante e geralmente vamos para lugares em que ambos têm interesse e afinidade. Além disso, na nossa casa também está nosso escritório, seja em São Paulo, seja em qualquer lugar do mundo. Ele vai pra todo lugar com a gente : carregamos o escritório nas costas.

Vocês optaram por “trabalhar viajando, viajar trabalhando”. Como isso funciona?

Batizamos nosso estilo de vida wireless, uma vida sem fio, porque seguimos vivendo e trabalhando em qualquer lugar do mundo, fazendo nosso trabalho remotamente, sem fios que nos prendam a um espaço físico — sejam fios de computador, de telefone ou mesmos os burocráticos. Mantemos um “quartel general”, nosso QG, na cidade de São Paulo, para os períodos de intervalo de viagens.

Glau trabalhando no deck superior de um barco de madeira no Vietnã. “Nosso escritório vai pra todo lugar com a gente”. (Foto: Vida Wireless).

Para abraçar esse estilo de vida, acreditamos ser preciso desapegar das rotinas, bens, horários. Abrimos mão das vantagens da vida corporativa, como remuneração regrada, assistência médica, décimo-terceiro salário entre outros benefícios desfrutados por quem tem carteira de trabalho assinada.

É preciso ter muita dedicação e responsabilidade para continuar prestando a mesma qualidade de trabalho para os clientes, estando no Brasil ou na Bósnia.

Também é necessário aprender a administrar o tempo, cumprindo suas obrigações e “turistando” somente nas horas vagas. Disciplina para focar no trabalho é essencial, mesmo que isso signifique deixar de conhecer algum ponto de interesse na cidade onde estamos vivendo naquele momento.

Trabalhando num apartamento em Zagreb, Croácia, “espaço acolhedor e com aluguel bem em conta.” (Foto: Vida Wireless)

E dá para aproveitar a viagem (e relaxar) nesse esquema puxado de trabalho?

A gente trabalha (e descansa) o mesmo número de horas de um profissional que está fechado num escritório de uma empresa.

A diferença é que gerenciamos o nosso tempo de uma maneira completamente diferente: trabalhamos por blocos e sempre com um alto nível de foco.

Por exemplo: ficamos muito focados numa tarefa por um bloco de 3 horas seguidas, sem distrações de Facebook, sem ficar enrolando no computador. Terminado esse período, tiramos algumas horas para fazer passeios pela cidade.

Depois, retornamos ao trabalho novamente. No final das contas, trabalhamos as oito horas. Mas não são seguidas. Vamos desconstruindo o tempo em blocos, conforme os prazos que assumimos. Assim, conseguimos passear e relaxar sim, sem comprometer nenhum cliente. O importante é qualidade da entrega, sempre.

Não passamos rapidamente pelos lugares. Não fazemos pinga-pinga entre cidades, na correria. Isso nos ajudar a organizar o tempo. Para se ter uma ideia, ficamos pelo menos três dia no mesmo lugar, podendo chegar até quinze dias na mesma cidade. E já chegamos a ficar até sessenta dias viajando direto.

Mesmo viajando assim, vocês mantêm uma casa alugada em São Paulo. E não pretendem comprar um imóvel. Por quê?

Ter casa própria não é um sonho de vida para a gente. Na verdade, nosso sonho, meta de vida, é viver bem, viver de uma maneira prazerosa. Todas nossas ações nos últimos anos têm a ver com esse propósito. Essa é uma das razões por escolhermos viagens em vez de direcionarmos nossas economias para aquisição de um único imóvel.

O casal numa pousada em Morro de São Paulo, Bahia. (Foto: Vida Wireless)

Se fosse menos complicado, vocês comprariam um imóvel?

Somente se tivéssemos muito (muito mesmo) dinheiro sobrando! Acontece que hoje, se fôssemos comprar um imóvel dentro de um padrão mínimo de conforto e bem-estar que buscamos (ou seja, trabalhando em casa, esquema home office, num ambiente agradável), teríamos que arcar com prestações de valor alto, comprometendo todo nosso rendimento durante trinta anos — o que inviabilizaria pequenos e grandes prazeres (como viajar, por exemplo) nesse tempo todo.

E se fôssemos juntar dinheiro para comprar um imóvel à vista, certamente só conseguiríamos comprar um imóvel aquém das nossas vontades e necessidades, o que não bate com a nossa visão de viver bem.

Além disso, principalmente num momento de incertezas políticas e econômicas como vivemos agora, se juntássemos dinheiro suficiente para comprar um imóvel e, em vez disso, aplicarmos o montante e alugarmos um outro imóvel para morar, no fim de dez anos o que teríamos aplicado ainda seria um melhor investimento.

O que é “morar bem” para vocês?

Morar bem é ter um espaço aconchegante, com um mínimo de conforto. Um lugar que nos faça sentir bem estando ali o tempo que for preciso. É ter música agradável, é ter luz natural, é ter barulho de passarinho, é ter árvore por perto, é ter lembranças das viagens, é ter café quentinho (sempre) e bolo (de vez em quando). E ter nós dois juntos.

Muita gente acha que casa é aquele lugar com a nossa cara. Nossos livros, quadros, plantas. Pensam assim?

Nesses doze anos de casamento, alugamos quatro lugares em São Paulo: dois apartamentos e duas casas. Os três primeiros imóveis alugados tiveram poucas interferências nossas. A atual casa é a que mais ganhou a nossa cara. E isso sem obra ou reforma.

Casa alugada pelo casal na cidade de São Paulo. “Dá para deixar tudo do nosso jeitinho, sem apelar para reformas. É só entrar na brincadeira e usar a criatividade”. (Foto: Vida Wireless)

A escolha da casa aconteceu porque nos identificamos com ela. Pintamos paredes, colocamos quadros e peças de decoração que têm totalmente nosso estilo, inclusive muitas trazidas de viagens. Até nos cômodos que não gostamos muito (quartos, por exemplo) decoramos com móveis práticos e peças que têm a ver com nosso gosto. Cada cantinho da casa tem nossa marca e representa nosso estilo.

Depois de passar por todas essas casas alugadas, vimos que dá para deixar tudo do nosso jeitinho, sem apelar para reformas. É só entrar na brincadeira e usar a criatividade.

Como pagar aluguel em São Paulo e juntar dinheiro para viajar tanto?

Mantemos a casa alugada em São Paulo, mas confessamos que não sabemos se essa é a melhor solução. A gente se questiona sobre isso o tempo todo. No momento, é o que fazemos porque ainda é confortável voltar para o Brasil e ter um cantinho nosso, aconchegante, com as nossas coisas. Mas pode ser que encontremos outra solução melhor no futuro. Hoje, para mantermos esse esquema, economizamos muito.

Procuramos consumir de forma consciente. A gente precisa trocar de carro todo ano? Não. Precisamos ter centenas de sapatos no guarda-roupa? Não. Precisamos comer sempre em restaurantes? Não. Precisamos acumular muitos bens? Não. Precisamos de dinheiro para pagar as despesas básicas e as viagens.

Glau Gasparetto e Adriano Dias em Lisboa, Portugal. (Foto: Vida Wireless)

Como vocês escolhem a hospedagem durante as viagens?

A nossa primeira opção é sempre por alugar uma casa ou apartamento. A segunda escolha é por pousadas. Os hotéis são geralmente muito mais caros e ficam como última alternativa.

A vantagem de ficar num apartamento é que conseguimos economizar em alimentação, pois podemos cozinhar. Outra questão importante é a conexão à internet. Em hotéis, como tem muita gente conectada, muitas vezes o wi-fi fica bem ruim. Em apartamentos e casas, geralmente, é o oposto: o wi-fi é totalmente nosso. Então, pra nós que precisamos estar conectados o tempo todo para trabalhar, isso faz uma grande diferença.

Além disso, alugar um imóvel em zonas residenciais é interessante porque gostamos de poder ir ao mercadinho, ao açougue da esquina, passar na feira de rua, usar o transporte público e andar muito a pé pelo bairro.

Esse estilo de vida vale para todo mundo?

Temos certeza de que não vale pra todo mundo, porque é um estilo de vida para quem não se apega à rotina, nem se importa em ter de se adaptar a uma nova situação (ou um lugar) o tempo todo. Isso não significa que somos melhores, nem piores que outras pessoas. É um estilo diferente, apenas.

(Fonte: autumn_bliss / Flickr)

A atual crise econômica afeta o planejamento de vocês?

O que vemos e vivemos é um momento de incerteza. Por isso, agimos com cautela. Se antes já economizávamos bastante para ter a chance de fazer mais e mais viagens, atualmente o fator dinheiro tem interferido na escolha dos roteiros em si (temos optado por países mais “em conta”). E seguimos procurando os preços mais baixos (de passagens, locação de imóvel, alimentação, transporte) em todos os roteiros que fazemos.

O bacana é que essa preocupação constante de procurar os melhores preços acabou se convertendo em um serviço que nos interessa, mas que beneficia outras pessoas também. O TripCo, serviço que lançamos em 2015, é um buscador dos preços mais baixos de passagens aéreas para 40 países. Lá é possível encontrar as passagens mais baratas para os destinos monitorados.

O que imaginam para o futuro?

Se for possível, queremos levar essa vida nômade até ficarmos velhinhos. Mas não há um plano fechado. Conforme imprevistos aparecem, vamos nos adaptando e nos ajustando. Enquanto estiver bom, vamos seguindo.

Muita gente nos pergunta “E quando vocês ficarem velhos, como vai ser?”. Não somos irresponsáveis. Agente guarda dinheiro, temos plano de previdência privada. E se for necessário parar e se fixar num lugar, nos adaptaremos da mesma forma.

Não temos medo de tentar. Se der para continuar assim, ótimo. Senão, tudo bem. Sempre nos adaptaremos. Confiamos na nossa capacidade de encontrar caminhos alternativos.


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